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Título: Perspectivas reparadoras do olhar e da memória : uma leitura da obra Rwanda 94
Autor(es): Barbosa, Veronica Maria Biano
Orientador(es): Reis, Maria da Glória Magalhães dos
Assunto: Genocídio
Memória
Política
Reparação
Data de publicação: 22-jul-2026
Referência: BARBOSA, Veronica Maria Biano. Perspectivas reparadoras do olhar e da memória: uma leitura da obra Rwanda 94. 2026. 228 f., IL. Tese (Doutorado em Literatura) — Universidade de Brasília, Brasília, 2026.
Resumo: Rwanda 94 (2002) é resultado de um trabalho de quatro anos de pesquisas do coletivo belga Groupov. A obra nasce a partir de uma dupla revolta: contra o genocídio dos tútsi em Ruanda, no ano de 1994, e contra o modo como esse acontecimento foi constantemente retirado de seu caráter de movimento histórico e apresentado como uma tragédia, uma fatalidade ou um problema puramente africano caucado em um suposto ódio étnico secular. O Groupov busca, então, por meio desse labor de criação estética, produzir uma forma que torne possível a representação, a compreensão e a reflexão sobre o genocídio, reinscrevendo-o como um fato historicamente situado e politicamente constituído no interior das dinâmicas de dominação produzidas pelo colonialismo. Seguindo uma lógica brechtiana, a obra congrega em si a tríade do teatro político, tendo nos elementos narrativo, crítico e político os seus fundamentos estruturais. Nesse sentido, a presente tese de doutoramento se constrói como uma reflexão sobre as relações entre estética, política e reparação que se articulam na obra. Rwanda 94 se propõe a elaborar uma reparação simbólica para com os mortos e oferecer-se como objeto para uso dos vivos, assim, o objetivo desta pesquisa é compreender em que medida a obra se constitui, de fato, como um teatro para o uso dos vivos. Para tanto, a pesquisa desenvolve uma análise dramatúrgica do texto teatral, articulada a uma abordagem interdisciplinar de perspectiva decolonial, situada na interface entre os estudos do drama moderno, a estética e a política. A partir dos tensionamentos que o Groupov imprime aos limites da forma dramática e mobilizando conceitos como história poética, política das sensibilidades e coralidade, demonstra-se que Rwanda 94 reorganiza regimes de visibilidade e de escuta, reconfigurando os modos de narrar e representar o genocídio e, consequentemente, as formas de produzir conhecimento sobre ele. A obra se constrói, assim, sob uma perspectiva reparadora que não coloca o genocídio em cena, mas antes constrói um caminho de racionalidade e inteligibilidade que permite questioná-lo. O dispositivo dramático rejeita uma lógica vertical, marcada pelo discurso explicativo sobre o outro, em prol de uma dinâmica da coralidade em que aqueles que foram historicamente reduzidos à condição de objeto do saber tornam-se sujeitos de enunciação e produtores de pensamento sobre sua própria história e sobre si.
Abstract: Rwanda 94 (2002) is the result of four years of research conducted by the Belgian multidisciplinary collective Groupov. The work emerged from a double revolt: against the genocide of the Tutsi in Rwanda in 1994, and against the way this event has repeatedly been stripped of its historical character and presented as a tragedy, a fatality, or a purely African problem rooted in a supposedly age-old ethnic hatred. Through this process of artistic creation, Groupov seeks to produce a form capable of making possible the representation, understanding, and critical reflection on the genocide, reinscribing it as a historically situated and politically constituted event within the dynamics of domination produced by colonialism. Following a Brechtian logic, the work embodies the triad of political theatre, with its narrative, critical, and political dimensions serving as its structural foundations. In this sense, the present doctoral dissertation is conceived as a reflection on the relationships between aesthetics, politics, and reparation as they are articulated in the work. Rwanda 94 aims to elaborate a symbolic reparation for the dead and to offer itself as an object for the use of the living. I therefore advance the hypothesis that, if literature acts upon the world through the construction and transformation of the symbolic, then Rwanda 94 enacts this agency by contributing both to the expansion of spaces of memory and reparation and to new redistributions of the sensible. Accordingly, the objective of this research is to understand the extent to which the work effectively constitutes a theatre for the use of the living. To this end, the study develops a dramaturgical analysis of the theatrical text, articulated with an interdisciplinary approach grounded in a decolonial perspective, situated at the intersection of modern drama studies, aesthetics, and politics. Drawing on the tensions that Groupov inscribes into the limits of dramatic form and mobilizing concepts such as poetic history, the politics of sensibilities, and chorality, this study demonstrates that Rwanda 94 reorganizes regimes of visibility and listening, reconfiguring the ways in which the genocide is narrated and represented and, consequently, the forms through which knowledge about it is produced. The work is thus constructed from a reparative perspective that does not stage the genocide itself but rather elaborates a path toward rationality and intelligibility through which it may be interrogated. The dramatic dispositif rejects a vertical logic, marked by an explanatory discourse about the other, in favor of a dynamic of chorality in which those who have historically been reduced to the status of objects of knowledge become subjects of enunciation and producers of thought about their own history and themselves.
Résumé: Rwanda 94 (2002) est le résultat de quatre années de recherche menées par le collectif pluridisciplinaire belge Groupov. L’œuvre naît d’une double révolte : contre le génocide des Tutsi au Rwanda en 1994, et contre la manière dont cet événement a constamment été dépouillé de sa dimension historique pour être présenté comme une tragédie, une fatalité ou un problème purement africain fondé sur la supposée existence d’une haine ethnique ancestrale. À travers ce travail de création esthétique, Groupov cherche ainsi à produire une forme qui rende possible la représentation, la compréhension et la réflexion sur le génocide, en le réinscrivant comme un fait historiquement situé et politiquement constitué au sein des dynamiques de domination produites par le colonialisme. Suivant une logique brechtienne, l’œuvre réunit en elle la triade du théâtre politique, dont les dimensions narrative, critique et politique constituent les fondements structurels. Dans cette perspective, la présente thèse se construit comme une réflexion sur les relations entre esthétique, politique et réparation telles qu’elles s’articulent dans l’œuvre. Rwanda 94 se propose d’élaborer une réparation symbolique à l’égard des morts et de s’offrir comme un objet destiné à l’usage des vivants. Je formule ainsi l'hypothèse que, si la littérature agit sur le monde par la construction et la transformation du symbolique, Rwanda 94 participe de cette puissance d'agir, tant en contribuant à l'élargissement des espaces de mémoire et de réparation qu'en proposant de nouvelles redistributions du sensible. L’objectif de cette recherche est ainsi de comprendre dans quelle mesure l’œuvre constitue effectivement un théâtre pour l’usage des vivants. Pour ce faire, cette étude développe une analyse dramaturgique du texte théâtral, articulée à une approche interdisciplinaire de perspective décoloniale, située à l’intersection des études sur le drame moderne, de l’esthétique et de la politique. À partir des tensions que Groupov imprime aux limites de la forme dramatique et en mobilisant des concepts tels que l’histoire poétique, la politique des sensibilités et la choralité, il est montré que Rwanda 94 réorganise les régimes de visibilité et d’écoute, reconfigurant les manières de raconter et de représenter le génocide et, par conséquent, les formes de production du savoir à son sujet. L’œuvre se construit ainsi selon une perspective réparatrice qui ne met pas le génocide en scène, mais élabore plutôt un chemin de rationalité et d’intelligibilité permettant de l’interroger. Le dispositif dramatique rejette une logique verticale, marquée par un discours explicatif sur l’autre, au profit d’une dynamique de la choralité dans laquelle celles et ceux qui ont historiquement été réduits à la condition d’objets du savoir deviennent des sujets d’énonciation et des producteurs de pensée sur leur propre histoire et sur eux-mêmes.
Unidade Acadêmica: Instituto de Letras (IL)
Departamento de Teoria Literária e Literaturas (IL TEL)
Informações adicionais: Dissertação (mestrado) — Universidade de Brasília, Instituto de Letras, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Programa de Pós-Graduação em Literaturas, 2026.
Programa de pós-graduação: Programa de Pós-Graduação em Literatura
Licença: A concessão da licença deste item refere-se ao termo de autorização impresso assinado pelo autor com as seguintes condições: Na qualidade de titular dos direitos de autor da publicação, autorizo a Universidade de Brasília e o IBICT a disponibilizar por meio dos sites www.unb.br, www.ibict.br, www.ndltd.org sem ressarcimento dos direitos autorais, de acordo com a Lei nº 9610/98, o texto integral da obra supracitada, conforme permissões assinaladas, para fins de leitura, impressão e/ou download, a título de divulgação da produção científica brasileira, a partir desta data.
Aparece nas coleções:Teses, dissertações e produtos pós-doutorado

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